Escrita por Mockingjay


    Sinopse:

  "'Que a sorte esteja sempre ao seu favor' é a frase que mais ouvi em minha vida, principalmente nesses últimos dias.
Mas é claro que a sorte não esta me favorecendo: meu amigo acaba de morrer; estou na Cornucópia, onde acontece o 'banho de sangue'; a bestante me quer como seu jantar; e as teleguiadas vão me ferroar, e algo me diz que não é só para me alucinar."
  Em seus últimos segundos de vida, ela reflete sobre os recentes acontecimentos e sua morte iminente.

 Notas:
 Classificação: +13
 Personagens: Suzanne Collins
 Gêneros: Amizade
 Avisos: Violência

  Texto:

Corro como se minha vida dependesse disso, e ela depende.
"Corra!", ele disse. Foi sua última palavra. Ele morreu, e eu nada pude fazer.

Bestante avança devagar, como um predador analisando a hora certa para atacar. Não, isso não deveria ser uma comparação; é exatamente isso que está acontecendo: a mutação analisando o momento para arrancar minha cabeça, assim como acabou de fazer com o tributo que agora jaz em pedaços.


Também conhecidos como teleguiadas, esses insetos, mutações, podem matar com poucas ferroadas, que são muito dolorosas.


E de que adiantaria atingir o animal? As teleguiadas me matam.


Corro, pulando sobre pedras e troncos caídos, lembrando-me da vida deixando seus olhos. 

Os mesmos olhos azuis que conheci na colheita. Desde esse dia, nos tornamos próximos, mesmo sabendo da nossa situação.

"Apenas um pode sobreviver", sua voz ecoa em minha cabeça.

De repente, percebo que estou chegando à Cornucópia. Essa não era minha intenção, mas não sabia aonde queria ir, só que precisava correr. Foi o que ele me disse para fazer. Eu confio nele, percebi a urgência em sua voz e em seu rosto, apesar de que estávamos longe um do outro.

Minha mente assimilou sua palavra e fez meu corpo se mexer. Tomei sua última fala como sua última vontade e obedeci.

"Vou fazer tudo para mantê-la viva", ele disse no dia de treinamento anterior à nossa ida para a arena.

"Ele fez um bom trabalho", penso. Só estou entre os quatro sobreviventes porque ele me ajudou.

Somos três agora; ele se foi.

Uma lágrima escorre por minha bochecha, afastando minhas lembranças.

"O que faço agora?", digo a mim mesma. Olho ao redor. Não sei quem matou meu amigo, só que eu estava fugindo dele e consegui despistá-lo.

Meu corpo cede ao cansaço e caio no chão. Não sei o que fazer. Só fico ali sentada, abraçando meus joelhos, que ficam cada vez mais molhados com minhas lágrimas.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas meu cérebro percebe sons: zumbidos e passos de alguém correndo; não só uma, mas sim mais pessoas, ou seres.

Sim, seres. Meus olhos veem um tributo correndo, mas o que chama a atenção é do que ele foge: um cachorro enorme e horrível - uma mutação. Não é a primeira vez que um deles aparece nos jogos. Já os vi pela televisão de minha casa. São chamados de bestantes. Esse é muito piores do que parecia na tv.

Ele pula sobre o tributo, derrubando-o no chão e arrancando sua cabeça.

Um grito sobe por minha garganta, pois estou aterrorizada.

A mutação não havia percebido minha presença. Até agora.

Ponho-me de pé pronta para correr, mas não o faço. Por quê?

Minha mente recorda os sons que ouviu há pouco: passos e zumbidos. Os primeiros pararam com a bestante, mas os zumbidos continuam.

Olho para a direita. Um enxame de tracker jacker se aproxima.

"Que a sorte esteja sempre ao seu favor" é a frase que mais ouvi em minha vida, principalmente nesses últimos dias.

Mas é claro que a sorte não esta me favorecendo: meu amigo acaba de morrer; estou na Cornucópia, onde acontece o "banho de sangue"; a bestante me quer como seu jantar; e as teleguiadas vão me ferroar, e algo me diz que não é só para me alucinar.

"Por que meus pés não se movem?" Essa é a pergunta em minha cabeça. Em algum lugar há possíveis respostas: minha recente corrida esgotou minha energia; estou em choque com a morte de meu amigo, ou a do tributo esquartejado; incrédula com a minha situação. Talvez alguma dessas razões seja a certa, ou todas elas.

Nunca pensei como minha morte seria, mas, se tivesse feito, não diria que mutações me atacariam de ambos os lados. Isso parece cômico.

Rio loucamente, sei que vou morrer.

A que ponto cheguei, não? - digo em voz alta - Acho minha morte engraçada - rio novamente.

Sei que meu tempo acabou. Você deve sentir orgulho de mim - olho para cima, para o céu que está claro e nublado, dirigindo-me a meu amigo, como se ele pudesse ouvir-me - Fomos realistas e sinceros quando dissemos que não ganharíamos. Mas vê onde cheguei? Sou a última a morrer! E que bom que vou! É melhor do que ganhar os Jogos Vorazes e me sentir como se fosse picada por teleguiadas todos os dias, alucinada, com inúmeros pesadelos, sem uma mente sã.

A morte iminente brinca com minha cabeça. Não me sinto em mim.

A bestante vem pela esquerda, as teleguiadas pela direita. Estão vindo em câmera lenta ou a distância que nos separa é maior do que parecia? Será que tudo o que pensei foi em segundos? Eu não sei mais nada. Em que pensar?

Percebo que este é o erro: não devo pensar. Minha vida está no fim. Logo serei livre; sem mais jogos, sem mais fome, miséria, sem mais pessoas com quem me preocupar, sem mais sofrimento.

Pego-me pensando em qual mutação me alcançará primeiro.

Então sinto medo. Isso me atinge de forma demasiada.

Já aceitei o que acontecerá a seguir, mas, ou serei rasgada e sangrarei até o fim, ou perfurada dolorosamente. Não quero sofrer mais!

Com o medo vem o pânico. Com o pouco de lucidez que me sobra, minha visão periférica percebe um brilho à direita. Viro minha cabeça nessa direção. Lá está uma carreirista com sua flecha apontada para a bestante.

Ela está tentando me ajudar. Por quê? Se eu morrer, ela ganha.

Olho para ela e percebo que entendimento a atingiu: ela sente que quero morrer e que tenho medo da dor.

Ela muda a direção de sua flecha para mim. Sei que me acertará em um ponto que tire minha vida instantaneamente; ela nunca erra.

Sorrio em agradecimento. As mutações estão quase em cima de mim.

Fecho meus olhos e uma flecha é atirada.




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