Uma edição comemorativa de INSURGENTE da Target.com trás algumas cenas exclusivas deletadas do livro -assim como a de Convergente, que foi publicada em alguns livros apenas, no ano passado. A primeira cena mostra quando Jeanine está testando Tris e, entre os testes, Tris vê e conversa com sua mãe morta; e a segunda, um "término" entre Tris e Tobias. Leia!




As cenas foram traduzidas pelo site Divergente Brasil.




ALUCINAÇÃO DE TRIS NA ERUDIÇÃO

 Nos primeiros rascunhos de Insurgente, eu abordei a parte da história em que Tris passa pelo complexo da Erudição em diferentes ângulos, tentando determinar como Jeanine faria os experimentos nos Divergentes. Em uma dessas abordagens, Jeanine está tentando desgastar a Tris, e Tris começa a ter alucinações com sua mãe (enquanto está ciente de que está tendo uma alucinação), o que trouxe momentos de levianidade obscura. Depois decidi que Jeanine não estava tentando tanto acabar com Tris quanto queria descobrir como o cérebro dela funciona, então essas cenas não fariam tanto sentido, mas eu, às vezes, sinto falta da diversão que era brincar com a Tris com sua mãe imaginária.


 Não sei que horas são quando as luzes finalmente se apagam, mas quando fica escuro, eu penso, fim do primeiro estágio. Isso é apenas uma iniciação, só que ao invés de ser a iniciação de uma facção, é a iniciação de um fim. Meu fim.

Não vejo quase nada por alguns minutos. Me levanto, dura, e alongo minhas pernas, agora que não preciso dos meus joelhos para bloquear as luzes. Vou até uma parede, me viro e ando até alcançar a outra.

Gradativamente a minha visão retorna, manchada. Meu ombro esteve latejando por alguns minutos, horas, não importa quanto tempo, mas não há muito o que eu possa fazer.
Então a porta se abre e Jeanine e Max entram. Max sorri para mim. Seus dentes são amarelos. Ver seu sorriso nessas circunstancias é de certa forma horripilante. Imagino como poderia alguém interpretar aquela expressão como amigável, nunca. Parece um cão mostrando os dentes.

Jeanine carrega uma prancheta. Ela usa calças pretas e uma camisa azul de colarinho, bem ajustada. Suas bochechas e seu nariz cumprido são rígidos, mas atraentes. Ela e Max são dois fins opostos de um espírito: um certamente perverso, e o outro perversamente e atraentemente disfarçado. Diferentes, mas exatamente o mesmo.
Eu não os ataco. Isso seria inútil. Max poderia quebrar meu pescoço com as próprias mãos. É esse o tipo de coisa que você aprende a fazer depois de décadas na Audácia, tenho certeza.

— Olá, Beatrice – diz Jeanine – Como está se sentindo?
Eu a encaro. Por que ela me perguntaria aquilo? Ela nem ao menos quer a resposta. Talvez não seja o conteúdo da resposta que ela quer, mas a forma de responder.
— Eu gostaria de saber que horas são – digo.
— Não posso te dizer isso – ela diz – gostaria que eu te explicasse porque está aqui?
— Não, está tudo bem – eu digo, encolhendo os ombros.
Ela estreita os olhos. Já deve ter percebido que estou jogando jogos mentais com ela.
— Não está falando muito, Max – eu digo – ou você está aqui só para se certificar que eu não me torne violenta? Como… um guarda, ou algo do tipo?
— Essa é apenas uma parte do porquê estou aqui – ele diz. Suas palavras parecem feridas. Peguei eles. Uma pequena vitória.
— Bem, não vou atacar – digo.
— Estranho – diz Jeanine – já que é o que esperamos de você na sua forma normal. Você geralmente usa a violência antes, antes de qualquer outra reação. Foi o que aconteceu quando atirou no meio dos olhos de Will, não foi?
O detalhe do lembrete – no meio dos olhos – deveria me provocar. De alguma forma, ter a habilidade de analizar o que ela está tentando fazer me faz sentir levianamente aliviada.
— Sim – eu digo. Me sinto um pouco chocada – mas essas circunstancias são diferentes.
— Verdade – ela diz, olhando para Max – acho que ela precisa de mais tempo.
— Acho que está certa – ele diz.
Os dois começam a ir. Eu quero gritar Mais tempo para o quê? Mas mordo meus lábio. A porta se abre e Jeanine para no batente da porta, tocando uma das paredes com suas unhas aparadas.
— Eu deveria agradecer por nos contar sobre Uriah – diz ela – eu poderia descobrir que ele era um dos Divergentes mais fracos e não tem uso para nós.
Ela sorri para mim, e enquanto anda para sair da sala, adiciona:
— Ele foi executado nesta manhã – a porta se fecha e os paineis se acendem, mais brilhantes que antes, brilhantes o bastante para me fazer lacrimejar. Mas não estão lacrimejando – eu estou chorando. Estou de joelhos.
E finalmente, finalmente estou gritando.

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— Ela pode estar mentindo – diz minha mãe.
— Estou alucinando – resmungo.
Ao menos eu sei que estou alucinando. Ela parece tão real que é difícil acreditar que estou imaginando ela. Mas no nono ano eu decidi me dedicar mais à psicologia que à sociologia, então sei o que é isso.
— Um episódio psicótico… – digo. Não ligo de estar falando comigo mesma. Não ligo se a Erudição sabe que estou reprimindo. – é um período da psicose que dura por um período de tempo indeterminado. É caracterizado por alucinações e desilusões. Que bom que não tenho as desilusões.
— Você tem uma memória boa – minha mãe diz, sorrindo.
— Apenas sou boa em fazer as coisas soarem como oficiais – digo, encarando-a de volta. Ela está sentada atrás de mim, de pernas cruzadas em um dos painéis de luz. Estou deitada no chão com meus braços esticados o mais longe que eu consigo.
— Como eu disse, – minha mãe diz – ela pode estar mentindo. Ele pode estar vivo.
— A mulher me pois em um tanque gigante e o preencheu com àgua, só pra ver como eu reagiria – eu digo. De repente o pensamento de estar em um tanque com água me parece hilário. Começo a rir. – Ah, é claro… – rio mais ainda, até que lágrimas correm meus olhos, e levanto o rosto para olhar para minha mãe, meu estomago se contrai e expande contra o chão – ela é um robô sem coração de peruca loira. Claro que ela o matou!
Paro de rir, mas as lágrimas não param. Deixo elas caírem. Talvez se eu puder deixá-las entrar entre as luzes dos painéis, algo pode dar errado com a eletricidade. Não, isso é estúpido. Não tem rachaduras entre os painéis de luzes, não tenho mais tantas lágrimas de qualquer forma.
— Você não sabia que isso aconteceria – diz minha mãe – você estava nervosa e deixou isso tomar de você, mas não sabia que eles o mataria.
— É? E como você sabe disso? – pauso por um momento – Deixa pra lá. Você sabe porquê eu sei disso. De qualquer forma, não importa. – Eu deito sob minhas costas de novo – ele é apenas o glacê de um bolo gigante de irmão traidor, pais mortos, ex-namorado, e câmera depravada de descanso, na verdade.
— Tem certeza que não posso te dar um abraço? – ela pergunta. Ela me pediu isso uns minutos antes, e eu disse não, porque ela não existe – parece que você precisa de um.
— Você nem é igual a ela – eu digo – você é essa aproximação estúpida. Acho que estou cansada de fazer você realística. Também, ela mal me abraçava, você sabe.
— Mas você gosta de abraços – ela aponta.
— Não de pessoas de mentira – eu digo, fechando meus olhos – nem da maioria das outras pessoas, também.
— Eu aposto que se eu fosse Tobias, você me abraçaria – ela diz.
— Está com ciúme? – pressiono a mão contra meu rosto. Minha mãe-alucinação tem doze anos de idade. – Se você fosse Tobias, eu não abraçaria você, eu pediria pra você nos tirar daqui.
— Ele é inteligente dessa forma – ela concorda.
— Tenho uma pergunta pra você – digo – como deveria uma pessoa tão boa quanto você lidar com um assassino e um traidor?
— É uma excelente pergunta – ela diz.
Ela rasteja no chão e se deita ao meu lado, e nossas mãos se tocam. Sua pele parece como pele de verdade – estranho como a mente guarda sensações com tantas precisão, é como sentir dor em um sonho. Eu suspiro, e seguro sua mão. É quente, e um pouco áspera, como a mão da minha mãe realmente era.
— Qual é o ponto de não te deixar dormir? – ela diz calmamente. Ela soa mais como minha mãe agora. Tão calma e quieta quanto ela deveria ser.
— Para acabar comigo.
Eu me levanto e olho para uma das câmeras.
— Estou acabada! – grito – Ouviram? Podem parar agora. Estou falando com minha mãe morta - Eu já estou acabada! (FONTE)



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TRIS E TOBIAS TERMINAM


 Em todos os rascunhos de Insurgente, Tris e Tobias terminavam o namoro por um tempo no meio da história, deixando ela muito isolada-muitos de seus amigos ou familiares estão mortos ou se foram nesse ponto e, sem Tobias, ela passa muitas cenas sozinha e tentando achar novos amigos. Eu gostei de ver Tris encontrar um lugar longe dele, e deixar eles irem em direções diferentes, mas recentemente eu percebi que eu estava fazendo eles terminarem porque eu não sabia o que fazer com eles, e isso não parecia certo. Ao invés disso eu escolhi deixar eles começarem a fazer escolhas diferentes e se mover em direções diferentes, mas mantê-los juntos, em conflito, lutando o quanto podiam para manter o relacionamento no meio de tanta desordem. Foi mais interessante para mim e me pareceu como algo que eles realmente fariam. Às vezes é tentador fazer coisas fáceis e familiares com os personagens – uma separação é uma dessas coisas para mim – aquilo era apenas um rascunho, mas isso não significa que seria uma boa decisão para os personagens e para a história, e foi algo que percebi depois.



 Retorno para a minha cama mais cedo naquele dia, e Tobias já está acordado. Eu não digo nada e nem ele o faz. Ele levanta e anda até o elevator, e eu o sigo, porque sei que é o que ele quer. Nós ficamos no elevador, lado a lado, em silêncio. Eu escuto um zumbido nos meus ouvidos e culpo minha falta de sono, mas acho que é mais porque tudo está prestes a desabar e eu sei disso.
 O elevador alcança o segundo andar e começo a tremer. Começa nas minhas mãos, mas passa pelos meus braços e peito, até que o estremecimento alcança toda parte do meu corpo e não há forma alguma de pará-lo. Fora do elevador está outro símbolo da Franqueza, as balanças desniveladas. Esse símbolo também está riscada no meio da espinha dele.
 Ele não me olha por um bom tempo. Se mantém com os braços cruzados e cabeça baixa até que eu não consiga mais aguentar isso, até que eu me sinta como se estivesse prestes a gritar. Eu devo dizer algo, mas não sei o que dizer. Não posso me desculpar, porque apenas contei a verdade e não posso mudar a verdade com uma mentira. Não posso dar desculpas.
— Então você matou Will.
Ouví-lo dizer isso me faz sentir o peso do que fiz. A culpa é mais pesada que o luto, quase mais pesada que o quanto eu posso aguentar.
— Sim – eu digo.
— Todos aqueles pesadelos que você estava tendo… eles eram sobre ele? – sua voz está baixa e sem controle. Eu sei melhor que qualquer coisa que isso é um bom sinal.
Assinto, uma vez.
— A maioria deles.
— E você não me contou.
— Não contei para pessoa alguma.
— Estava aqui pensando que eu não era apenas “alguma pessoa” para você. – ele diz e ri severeamente — Acho que não.
Ele não está gritando, mas está à beira disso, sua voz tremulando enquanto ele tenta mantê-la sob controle. Ele me encara, e esse olhar é uma acusação, mas não sei do que ele está me acusando. De mentir? Esconder coisas dele? De ter matado um dos meus amigos? Não estar apaixonada por ele?

 Eu não sei de onde a raiva vem, porque alguns segundos atrás, eu estava apavorada, com medo de perde-lo. Mas meu rosto está borbulhando, quente, e a criatura que estava arranhando minha garganta desde que Will morreu, range seus dentes.
— Me desculpa, tive falta de consideração? – digo. — Que terrível de minha parte não pensar nos seus sentimentos quando meus pais estão ambos mortos e eu não posso dormir sem pesadelos sobre um exército de Audaciosos sem vontade própria e quase me afogar em um vidro e ter atirado na cabeça do meu amigo!
— Nem ao menos finja que estou sendo trivial – ele diz – Você sabe tão bem quanto eu que isso é só o começo das coisas sobre as quais você mentiu pra mim.
— Eu não menti pra você. Eu…
— Você não mentiu para mim? Toda vez que te perguntei o que estava errado você me veio com uma desculpa, cada vez que você se rastejou pra minha cama e fingiu que você estava apenas de luto pelos seus pais, aquilo tudo não foi mentira?
— Eu te conheci há semanas – eu digo brutamente – e não meses. E não anos. Semanas. Eu não tenho que te contar tudo. Tobias?
— Não, você não tem. – ele diz. Toda a raiva esvaindo com sua voz como o ar de um balão que murcha e ele me dá um olhar cansado. — Mas o fato de que você não quis me contar…
— Eu não quis te contar uma coisa – eu digo — Isso não muda nada!
— Você não quis me contar sobre o tanque d’água. – ele diz. – Você nunca quis me contar sobre seus pais. Nós não tivemos uma conversa honesta por semanas, não desde que eu te pressionei para me contar sobre suas paisagens do medo.
Eu não tenho nada a dizer, porque eu sei que ele está certo.
— Estou de luto. – eu digo sem reação – Eu não sei como fazer o que eu nunca fiz antes.
— Você não está me ouvindo? – ele pergunta, me olhando feio – Estou te falando que não tem nada com a morte dos seus pais, ou a morte de Will, ou o ataque. Eu estou falando que você foi assim desde que eu te conheci; você sempre foi assim.
Meus lábios se abrem para liberar uma palavra, mas nada vem.
— Você é impermeável, – ele diz – e eu não posso mais fazer isso.
Não posso fazer isso. Eu tento forçar as palavras para fora da minha mente para que então eu possa entender o que elas significam, mas elas flutuam, longe de ter algum senso ou lógica. Eu ouço o som delas, sinto a forma delas na minha cabeça, mas eu não consigo ver o significado delas.
E então eu consigo.
— Não é sobre mim, – eu digo. Minha voz fica mais alta, se esforçando para ser ouvida, embora estejamos em uma sala vazia. – Não faça parecer que é! É sobre você e sobre como você não consegue aturar que eu não professei meu amor eterno por você depois de semanas de namoro. Isso é sobre suas expectativas sem razão e não sobre mim!
— Talvez seja, – ele diz calmo – Pode me culpar, eu acho, quando você quase morreu por mim, aquilo foi quase um sinal. Um sinal de que você sentia por mim o mesmo que eu sinto por você. E eu contei pra você. Eu fui honesto com você – ele balança a cabeça – e hoje eu descobri que você não segurou a arma não porque não se importava comigo. Você fez isso porque acreditava que era a coisa certa. Você o fez por dever.
— Eu salvei sua vida!
— Sacrifício sem sentimento por trás é um sacrifício vazio – ele diz – Inútil. Sem sentido.
— Você é irracional, – digo – Irracional por querer que eu tenha tantos sentimentos por você depois de tão pouco tempo, e irracional por esperar que eu fizesse coisas certas com intenções perfeitas.
— Você não consegue nem enxergar a si mesma! – Ele pressiona a mão na testa – você está discutindo comigo sobre lógica e sobre o que estou dizendo. Você está nervosa porque não acha que minhas razões fazem sentido. Você não está triste. Não está de coração partido. Ficará bem sem mim.
Sinto como se meu cérebro estivesso preso em um lugar, na minha palavra—impermeável.
— Não posso ficar com alguém que seria a mesma comigo e sem mim – ele diz.
— Mas eu… – minha garganta parece estreita, e tem mil coisas que quero dizer. Eu quero dizer que eu preciso dele, que eu não aguentaria as últimas semanas sem ele. Eu quero dizer que eu acho que vou amar ele, quando o peso do luto e da culpa saírem da minha vida. Mas apenas o encaro, meu coração retumbando contra meus ouvidos, pensando que ele disse que sou impermeável; ele chamou meu sacrifício de sem sentido. Ele acha que sou fria. Como Eric. Como Jeanine. Como um Erudito.
E eu não posso dizer que preciso dele. O pensamento me faz parecer doente, como no dia em que tive que andar até a cafeteria com minha cabeça baixa depois que Peter me atacou.
— Foi o que imaginei – ele diz.

Orgulho é a falha de todo coração da Audácia.
 E é a falha do meu.

Por Flávia Bergamin


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